1317 CV - Terras dos Vales

Lara Belarn entrou na sala aos fundos de sua casa enquanto sua mãe, Nivien, estava separando os fios de bordar. Apesar de cega, a velha matriarca Belarn nunca tivera problemas com a roca, as agulhas ou as linhas. Há dias Nivien voltara do Conselho dos Vales e desde então tudo o que ela tem feito é separar fios e bordar. Lara não sabia o que sua mãe estava fazendo, mas pelo tempo que passava em sua atividade e extensão de sua peça, se ela estiver bordando um tapete, esse alcançará Mulhorand.

"Mamãe, não acha que é melhor parar isso?"

"Não até que os sonhos tenham passado", respondeu Nivien, ríspida e incomodada.

Preocupada, Lara sentou ao seu lado. Nivien escutou a respiração da filha e lembrou da última reunião do Conselho - o bater dos corações ansiosos das pessoas que lá estavam, o ranger de suas armaduras polidas, símbolos de uma geração que olhava para o futuro sem fazer as pazes com o passado. Ela pensou o quanto todos aqueles pretensos monarcas e homens de armas eram bobos, o quanto eles deveriam tomar outras atitudes, como eles deveriam ter dado ouvidos a ela.

"Traga o Sermão e leia-o aqui para mim", pediu Nivien a Lara, no momento em que acabou de alinhar todos os fios em sua costura.

A filha foi até a sala da frente e pegou um rolo de pergaminho.

"O Sermão do Eclipse", pensou. "Escrito por Rhyester em 760 CV, uma verdadeira relíquia na família. Deve ser tão velho quanto mamãe e tão imortal quanto...", sorriu.

Quando Lara voltou ao salão de bordar, sua mãe já começara os trabalhos. Os dedos hábeis e precisos da matriarca pareciam dançar entre os fios, fazendo desenhos tão rápidos quanto o pensamento. Lara de imediato iniciou sua leitura.

"Porque Ele é o deus dos recomeços, o Senhor do Amanhecer recompensa aqueles que se arriscam em novas aventuras. Todas novas tentativas de empreendimentos possuem em seu valor o risco da falha, mas as lições aprendidas dos inevitáveis erros permitem-nos crescer"

Os dedos lépidos de Nivien teciam um grande sol que engolia a manhã, o entardecer e a noite. Abaixo dele, uma pequena lua acalentava uma cidade destruída e nesta cinco personagens se desenhavam na trama: uma jovem guerreira com uma manopla de Torm no abdômen e um coração na cabeça, um ranger carregando um coração quebrado no peito, outro ranger com a lua de Selune no lugar de seu coração, um clérigo com um grande machado cobrindo seu peitoral e abdômen e um guerreiro sagrado com um sol em seu torso com uma ampulheta no centro do símbolo celeste.

"Quem são esses, mamãe? Heróis do passado? Não me recordo de nada assim nas histórias..."

"São os Escudos, mas eles ainda não sabem disso. Não pare de ler", respondeu Nivien, impaciente.

"... o Cataclisma da Aurora, embora muitos concordem que foi um desdobramentos da Queda de Netheril e arauto da Queda de Myth Drannor. Alguns dizem que ocorreu antes de Mystra estabelecer o cargo de Magistrado, sete séculos atrás, enquanto outros insistem que ocorreu depois que Azuth enfrentou Savras pela supremacia do serviço a Mystra..."

No tecido, a figura dos "Escudos" desceu uma longa escadaria, encontrando morte e renascimento nas águas de um rio, onde um tubarão dourado surgiu da luz do clérigo, mas caiu quando sua sede de sangue escureceu seu discernimento e raízes rasgaram sua pele. Assim, os aventureiros continuaram sua jornada até encontrarem um local onde um pequeno amanhecer lhes deu segurança. O ranger com a lua no peito encontrou caminhos, definiu pegadas e saídas. Até esse momento, a tela era clara, feita por fios amarelos, laranjas, vermelhos, detalhes que davam um tom belo e vivaz à arte.

Então seus tons escureceram. Fios negros cobriram os olhos do guerreiro sagrado, os aventureiros desceram mais níveis do que deveriam, uma série de imagens confusas, onde as figuras de magos e guerreiros com o dragão em seus corações entraram em cena. Um combate se alongou, e a vitória não foi dada aos heróis. Eles voltaram para a área onde o amanhecer tudo santificou e da boca da guerreira palavras de ensino e força.

"...O Senhor do Amanhecer nos ensina a aprender com as histórias dos divinos e aplicar suas lições em nossa própria vida. Quem aqui não fez um mal e tentou corrigi-lo?"

Lara continuou sua leitura e não percebeu que sua mãe desenhava desmortos circundando a sagrada área onde os heróis estavam seguros. O ímpeto e a revolta do paladino tomou o amanhecer daquele local e o toque sagrado reforçou seu abalado espírito, destruindo algumas criaturas, afastando outras, mas o número cresceu, apesar de ali só um ficar.

Nesse momento o correr de fios da trama parou e Lara viu a cega mãe absorta em suas visões, com sua cabeça apontada para cima, as pupilas brancas dos olhos pareciam bem mais mortas. A velha passou os dedos sobre a figura do morto-vivo e Lara gelou com a imagem.

"M-ma-mãe?", balbuciou a filha, assustada.

"Continue", respondeu Nivien, com uma voz cadavérica. "Continue para que eu possa sair daqui".

"... esses eventos significam que não devemos proceder, que não devemos correr riscos, que não poderíamos tentar coisas novas?"

A trama de Nivien continuou mais rápida que antes. A pobre mulher suava sobre os fios enquanto os heróis de sua história avançavam por uma escada que apontava para cima, onde eles enfrentaram grandes monstros reptilianos. Os dedos da matriarca eram tão rápidos que se confundiam para olhos humanos. Suas unhas partiram, e já não eram mais as agulhas que teciam os fios. Em um dado momento, Lara percebeu um tom vermelho diferente por entre a trama e sangue pingou da arte e dos dedos de sua mãe.

"Mãe, já chega! Pelos deuses, seus dedos...", ela falou, desesperada.

"CONTINUE!", gritou a mulher.

Brilho e destruição. Fúria e ossos quebrados. No desenho, o clérigo caiu, e o sangue que escorria da figura era o de Nivien. Lara não percebeu, mas os fios de trama se tornavam vermelhos, marrons, depois amarelados e finalmente brancos. Ela ainda lia um último trecho

"... libertação vem através de tempos de pertubação, e tempos de pertubação resultam de novas jornadas que mudam o presente no futuro que deve ser"

O som seco no assoalho retirou Lara de sua leitura. Sua mãe jazia agonizante no chão com os dedos completamente presos aos fios de sua trama. Quando Lara correu em seu auxílio ainda conseguiu ouvir seu último suspiro

"Não deixe que os Escudos morram..."

1372 CV - Encontro Eterno

Mari Anna acorda assustada de seu transe. Ela percebe que ainda está em seu quarto de pesquisas em Encontro Eterno. Seu esposo, o meio-elfo Brunnus, está logo ao lado e segura sua mão quando ela finalmente abre os olhos.

"O que foi, amada?"

"Eles estão em Myth Drannor.", ela responde e sua voz é trêmula e incerta.

"Isso é bom. Eles seguem o esperado.", responde ele, tentando passar-lhe segurança, apesar de sentir-se confuso.

"Não. Não dessa forma. Eles estão na antiga Myth Drannor. No tempo em que muitos se sacrificaram para que existisse nosso presente", Mari Anna não consegue conter as lágrimas. "Eu vi a morte de um elfo... Por um instante eu fui ele... Senti seus sentimentos, percebi sua dor..."

"Você deve descansar agora. Vamos sair daqui. Já chega de ficar trancada aqui", fala Brunnus, não contendo sua preocupação e elevando o tom de voz. Sua parte humana fala mais alto em momento assim.

"Tudo bem"

Os dois saem do quarto sem perceber que o pergaminho com as descrições da Chave Solar brilha. A arma de legado reclama pelo seu Escudo portador.


Ruínas de Myth Drannor.

This entry was posted on 5.06.2014 at 15:18 and is filed under , , , , . You can follow any responses to this entry through the comments feed .

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